Sites de Redes Sociais – revolução, competição e futuro
Jovens gastam mais tempo em sites de redes sociais do que em sites de conteúdo.
Para começar gostaria de deixar claro que a expressão “sites de redes sociais” é utilizada de forma equivocada para classificar web apps. Vale lembrar que os sites na Web são páginas disponíveis através da Internet, que evoluíram de simples documentos com hipertexto (texto com links) para aplicações completas com diversas funcionalidades (serviços). Esta evolução ficou conhecida como Web 2.0. Uma revolução, em especial, aconteceu quando essas aplicações começaram a prover funcionalidades de gerenciamento de redes sociais para seus usuários. Os sites (web apps) com este suporte agregaram muito mais valor para os usuários. Por exemplo, no cenário brasileiro o Orkut é o site mais utilizado para gerenciar a rede social das pessoas, apesar do objetivo principal do sistema é gerenciar comunidades online.
O Twitter é um serviço de veiculação de mensagens curtas, mas por muito tempo foi, e muitas vezes ainda é, classificado como site de rede social. A configuração dos canais de comunicação, quem você segue e quem segue você, define de forma implícita uma rede social, que não representa a rede de relacionamentos dos usuários no sentido de rede social de amigos. Assim vai por outros sistemas, até chegar ao Facebook, que além de ser o mais famoso, se define como um site provedor de serviços sociais a seus usuários. Os principais serviços sociais são gestão da rede social, difusão de mensagens, photos, links e chat. Ao comparar os sites com suporte a redes sociais deve-se focar nas funcionalidades e na modelagem da rede social. Atualmente, a classificação “sites de redes sociais” é ruim porque o suporte a redes sociais, geralmente definido por modelos bem diferentes, é apenas mais uma feature dos sistemas, mas são facilmente diferenciados por propósito e serviços. Embora, como é uma expressão consagrada vale utilizá-la para discutir o tema (um outro exemplo clássico de expressão equivocada, mas útil é data science).
O Facebook é o site de maior sucesso entre os que são chamados sites de rede social. Hoje em dia os usuários de Internet passam mais tempo no Facebook do que usando serviços Google (ref). Eu acredito que seu sucesso principal se deve ao ecossistema de aplicações desenvolvida por terceiros e funcionam integradas à plataforma. As principais aplicações (killer apps) são jogos. A Zynga se destaca e seu FarmVille possui bem mais usuários que o Twitter (ref). O jogo é gratuito, mas os usuários pagam por mercadorias virtuais como objetos de decoração para a fazendinha. Tem aplicações que pagam para seus usuários jogarem (dosh). Sobre ecossistemas vale um post extra, mas fica esta referência a quem interessar: game-of-platform-power. O Orkut tentou criar um ecossistema, mas deu muito certo. Eu vejo a tecnologia da plataforma Facebook muito superior ao Open Social usado pelo Orkut. O Orkut também não é um bom competidor com o Facebook, e por isso a Google acaba de lançar um novo serviço, o Google+.
O Google+ foi anunciado como uma evolução natural dos serviços oferecidos pela Google. A empresa diz que é uma camada social para integrar todos seus serviços. Isto ficou reforçado pela barra negra no topo de todos os sites da Google. Eu vejo o Google+ como um competidor direto do Facebook, pois os serviços são muito parecidos. Vale lembrar que o Facebook também não foi o primeiro site a fornecer serviços sociais e um fator determinante para o sucesso foi o tipo de público, como por exemplo, frente ao MySpace (danah boyd research). O Google+ vem para suprir deficiências do Facebook, como a modelagem computacional das redes sociais.
@spolsky: Which circle are you in? The revenge of autistic Social Software (hat tip to danah boyd) https://plus.google.com/u/1/117114202722218150209/posts/iSuoKVpt7c2
A modelagem computacional nada mais é do que como o sistema representa o conceito rede social que nós já estamos acostumados. Para a construção do Google+, foi realizado um estudo que fundamentou a definição dos círculos sociais. Ainda assim, este modelo computacional mais refinado trás desvantagens porque os usuários tem dificuldade em classificar seus contatos em um sistema de categorias. Os sistemas são modelos, representações simplificadas, da vida real. No caso das redes sociais, os sistemas computacionais são modelos matemáticos que representam conceitos que somente agora estão sendo estudados sob esta ótica. As ciências sociais existem desde os gregos, mas a pesquisa nesta área continua ativa, principalmente pela carência de modelos computacionais para representar esta realidade. Veja por exemplo o estudo sobre a complexidade das ligações entre os círculos sociais: Link communities reveal multiscale complexity in networks. Eu acredito que o modelo computacional para redes sociais do Google + é bem superior ao do Facebook, mas ainda não representa bem a realidade. Embora, o suporte a herança múltipla de círculos social deixaria o modelo mais aderente à realidade, e que poderia levá-lo a ser chamado de G++, a dificuldade de uso pode ter sido o motivo para os desenvolvedores terem optado pelo modelo mais simples.
@mattgemmell: Now all they need to do is add a hellish multiple-inheritance model for your social circles, and they can call it Google++. (CS inside joke)
Sobre o futuro, eu acredito que o sistema que tiver o melhor modelo computacional aliado à facilidade de uso ganhará uma eventual disputa. Embora, possa não haver disputa alguma e cada site buscar um nicho. O LinkedIn é um ótimo exemplo de site de gestão de rede social que buscou o nicho empresarial para se destacar. As features (ref1, ref2) também vão ter um peso significativo na disputa, mas ainda é impossível fazer uma previsão do que será importante. Os sistemas foram construídos a partir de experiências sociais da vida real, mas agora a vida real está acontecendo considerando experiências sociais no mundo virtual. As pessoas estão adaptando o seu modo de vida de acordo com os serviços da Web 2.0. Pense em privacidade, como era na década passada, como é hoje (realidade) e o que pode acontecer amanhã. Estamos cada vez mais próximos de ter tecnologia para realizar o que foi retratado no livro 1984 por George Orwell. A garotada não se importa mais com privacidade e abre sua vida em registros online e em tempo real. Vários pais já controlam os filhos através do GPS dos smartphones (ref). A única certeza que eu tenho é que o futuro será bem diferente de hoje e altamente influenciado pelos modelos computacionais da Web 2.0.
Alguns links que ressaltam as diferenças entre as plataformas: http://www.tecmundo.com.br/3937-orkut-x-facebook-quais-as-principais-diferencas-.htm, http://techatlast.com/difference-facebook-google/ e uma avaliação com viés pró-facebook: http://socialmediatoday.com/tommyismyname/312363/why-google-doesnt-stand-chance-against-facebook.
Sistema tradicionais, como aplicativos de email, estão adicionando features sociais a partir da análise dos dados de seus usuários: Gmail sugere contatos através pela descoberta da rede social implícita no seu uso. Às vezes, os usuários ficam assustados e insatisfeitos com esta atitude proativa dos sistemas. O lançamento do Google Buzz é um caso típico de uso equivocado dessas capacidades e violação de privacidade dos usuários (ref). Um número significativo de usuários está preocupado em fornecer informações para o Google e estão desistindo de alguns serviços, como o Google Health , embora a área esteja crescendo e revolucionando em sites específicos (patientslikeme.com, apresentação do criador,curetogether.com, Does masturbation work for insomnia?). Insatisfação similar já acontece com o Facebook por causa do reconhecimento automático de face (why is facebook losing americans?). Ainda vale citar os sistemas Q&A (perguntas e respostas) que são aplicativos sociais, mas (intencionalmente) não dão suporte à rede social como o stackexchange.com. Os criadores dizem que a rede social desvia os usuários do propósito principal da aplicação.
Este post é uma tentativa de mostrar onde estão as diferenças dos sites com suporte a redes sociais. Eu mesmo ainda enfrento outros problemas quanto tento explicar o meu trabalho. Eu faço análise de mídias socais, ou seja, extraio dados da Web 2.0 para analisar em relação a um tema específico. Não faço análise de redes sociais (exemplo), mas busco extrair conhecimento das massas que estão disponíveis na Web (Etnografia_Online). Muitas vezes esses dados são obtidos de sites de redes sociais e aí começam a citar conhecidos que fazem a “mesma” coisa, pois generalizam para qualquer coisa relacionada a sites de redes sociais. Isto me lembra de quando eu era estudante de computação no interior de Minas e os familiares me perguntavam o que eu estudava. Diversas vezes eu tive que ouvir algo assim: “nossa, querido, que coincidência, nós temos uma prima do seu primo que também trabalha com computador, ela tem um lá na mesa dela, porque ela é a secretária do prefeito e usa pra escrever cartas”. Na minha formatura da graduação teve um caso mais interessante ainda. O pai de um amigo, um senhor humilde de pouco estudo que vive em uma pequena cidade, veio falar para o meu amigo ficar despreocupado pois ele já tinha conseguido um emprego pra ele na prefeitura da cidade como digitador, porque eles precisam de pessoas que sabem mexer em computador. (No interior, as prefeituras são os lugares com mais tecnologia.) Enfim, quando não se enxerga os detalhes, tudo fica muito parecido. Espero que as pessoas se interessem por entender as peculiaridades de cada site porque eles vieram para ficar e o nosso futuro será influenciado por eles.

