ciência, tecnologia e arte – discussão sobre a definição dos termos e sistemas de classificação
Durante minha pesquisa, frequentemente tenho que praticar uma autocrítica se estou usando os termos certos para o que estou pensando. É uma reflexão epistemológica de como apresentar as ideias que compões meu raciocínio em termos de palavras e relações lógicas. Quando eu tratava apenas com matemática era fácil encontrar as palavras ideais, ou mesmo notação matemática adequada para representar exatamente o que eu penso. Quando vamos para outras áreas do conhecimento, como humanas, já não tenho tanta certeza de quais palavras eu devo usar.
Em particular, deparei-me com uma questão sobre a definição de ciência, arte e tecnologia. Aparentemente pareceu fácil defini-las e estabelecer fronteiras, mas na verdade elas estão totalmente inter-relacionadas. A primeira relação que me veio à mente foi a expressão “tecnologia no estado da arte”, que assim chamamos a tecnologia conhecida mais avançada. Intuitivamente, temos que desenvolvendo a ciência melhora-se a tecnologia, que na sua versão mais avançada é chamado estado da arte. Por outro lado, arte geralmente está associada com manifestações livres da criatividade humana, livre de formalismos. Uma pintura, uma música, ou um livro são exemplos de artefatos chamados de arte. A ciência obedece a um rigor técnico, chamado método científico. A arte é livre para expressar a criatividade humana. A tecnologia, por sua vez, é capaz de afetar tanto a ciência, possibilitando o uso de ferramentas para aprimorar experimentação científica, bem como a arte através ferramentas para novas expressões artísticas. Por exemplo, o computador é uma tecnologia que permite criar ciência ou arte. Após esta reflexão inicial, decidi procurar pela definição dos termos
A palavra ciência vem do latim “scientia” e significa conhecimento. De acordo com o dicionário Webster’s New Collegiate, a definição de ciência é “conhecimento obtido através de estudo ou prática”, ou “conhecimento sobre verdades gerais do funcionamento de leis gerais, especialmente as obtidas e testadas através de método científico e relacionadas ao mundo físico.” (http://www.sciencemadesimple.com/science-definition.html) A primeira definição é muito geral, e por isso considero a segunda definição mais interessante para discutir o significado das palavras. Pela segunda definição, o conhecimento científico está necessariamente relacionado com fenômenos do mundo físico, e por isso, diz-se que matemática pura não é uma ciência (link). Ciência para ser ciência tem que ser derivada de fenômenos naturais do mundo físico.
Particularmente, prefiro ficar com a primeira definição, mas acrescentando o método científico. O método científico ajuda a organizar pensamentos e procedimentos. (http://www.sciencemadesimple.com/scientific_method.html) Um exemplo de passos de um experimento que usa o método científico é: (a) observação/pesquisa; (b) hipótese; (c) predição; (d) experimentação; (e) conclusão. Dependendo da área da ciência ou objeto de estudo, o método científico pode variar no rigor e formalismo, bem como nos resultados obtidos – o conhecimento gerado. Por exemplo, em matemática (sim, considero matemática como ciência – conhecimento científico) os teoremas provados na época dos gregos ainda são válidos, e assim serão para sempre. Em compensação, na astronomia as teorias tendem a perder a validade com a descoberta de novos fenômenos, cuja observação é possível apenas com tecnologias no estado da arte. Ainda há áreas cujo conhecimento é relevante em relação às gerações, como em ciências sociais as teorias gerais tendem a ficar obsoletas com a evolução das sociedades.
Em suma, fico com a definição de que ciência é o conhecimento é obtido através de estudo ou prática através de método científico. Portanto, produz-se ciência baseando-se nos seus dois pilares: o estudo (teoria) e a prática (experimento). Mas, a tecnologia está mudando esta definição. Antes vamos a definição de tecnologia.
Na definição do Wikipédia em português, a definição de tecnologia varia dependendo do contexto (http://pt.wikipedia.org/wiki/Tecnologia), mas fico com a definição geral do termo que é apresentada em inglês (http://en.wikipedia.org/wiki/Technology). “Tecnologia trata do uso e conhecimento de ferramentas e artefatos, tanto para humanos como outras espécies animais, e como isso afeta a habilidade da espécie para controlar e adaptar seu ambiente natural. A palavras tecnologia vem do Grego “Technología”, e significa estudo de algo, ou o ramo do conhecimento de uma disciplina”. Vale ressaltar, que ainda de acordo com o Wikipedia não é clara a distinção entre ciência, engenharia e tecnologia (link).
Definições mais gerais, apesar de não serem precisas na explicação, nos dão liberdade para evitar incoerências lógicas quando começamos a combinar as coisas. Como eu disse anteriormente, os dois pilares em que a ciência se baseia é estudo teórico e prático através de experimentos. A definição clássica de um experimento está relacionada com a manipulação de coisas naturais e, por isso, realizada no mundo físico. A tecnologia dos computadores permite criar simulações com alto grau de fidedignidade aos experimentos clássicos, mas a um custo muito mais baixo. O custo no caso é em dinheiro e tempo (tempo é dinheiro!). Então, diz-se que o advento da computação criou um terceiro pilar nos fundamentos da ciência através da simulação. Os três pilares da ciência passam a ser teoria, experimento e simulação.
O crescimento da tecnologia aproxima uma função exponencial. Em outras palavras, a tecnologia evolui muito mais rapidamente do que era anteriormente. Permita-me citar Bernard Shaw para ilustrar como metáfora a relação do crescimento do conhecimento e de coisas do mundo físico. “Se você tem uma maçã e eu tenho uma maçã, se as trocarmos, cada um de nós continuará com apenas uma maçã. Mas eu tenho uma ideia, e você tem uma ideia. Se as trocarmos um com o outro, ambos teremos duas ideias”. E a tecnologia mais fantástica já inventada pelo ser humano para o compartilhamento de ideias é a Internet. Já se fala da Internet como o quarto paradigma na produção científica (artigo nytime 2009-12-15,fourthparadigm). Webscience é o nome dado à área da ciência que estuda a Internet, mas as informações presentes nela possibilitam alavancar pesquisas de outras áreas (ref).
Por fim, ficamos com a definição de arte. Segundo a Wikipédia, “Arte (Latim Ars, significando técnica e/ou habilidade) geralmente é entendida como a atividade humana ligada a manifestações de ordem estética, feita por artistas a partir de percepção, emoções e ideias, com o objetivo de estimular essas instâncias de consciência em um ou mais espectadores”. (http://pt.wikipedia.org/wiki/Arte) Na sequencia desta linda definição, vem a ponderação “A definição de arte varia de acordo com a época e a cultura.” No verbete em inglês (http://en.wikipedia.org/wiki/Art), diz que o problema começou no início do século 20 quanto a classificação de que se um artefato é considerado arte ou não. De qualquer forma, vale grifar que para ser arte tem que ser necessariamente uma atividade humana. Um macaco que pinta um quadro não é arte, mas se o macaco for induzido por uma atividade humana então já é criada uma oportunidade para discussão.
Fico com a definição para arte de Seth Godin (making-art), que particularmente gostei bastante. Segundo ele, a definição de arte contém três elementos: (i) arte é feita por um ser humano; (ii) arte é criada para ter um impacto, para mudar outra pessoa.; (iii) arte é um presente. Você pode vender o souvenir, o quadro, a gravação… mas a ideia por si só é livre, e a generosidade é uma parte crítica de fazer arte. Por esta definição, a maioria da arte não tem nada a ver com pintura a óleo ou esculturas. Arte é o que nós estamos fazendo quando nós fazemos nosso melhor trabalho.
Como este é um blog de tecnologia e tem algumas coisas de programação deixo uma pergunta para reflexão: programação, no sentido de programar um computador, criar um programa, é uma arte?
Retomando, a pesquisa não parou por aqui, mas foi apenas o começo de uma ambição maior – o estudo da classificação do conhecimento humano. Meu objetivo é conseguir um sistema de classificação de coisas para ser utilizado em uma ferramenta de busca. Termos como taxonomia, ontologia, diretório, catálogo, categorização e classificação estão relacionados a esta pesquisa, e geralmente são utilizados de forma incorreta (http://www.searchtools.com/info/classifiers.html).
Para exemplificar a questão, vamos tomar o site TED para estudo. Segundo a definição no site (about), TED é uma pequena sem fins lucrativos, devota a ideias que valem ser divulgadas. Ela começou em 1984 como uma conferência para reunir pessoas de três mundos: Tecnologia, Entretenimento e Design. Desde então, seu escopo expandiu. Nas categorias temáticas do site é possível encontrar em destaque: Tecnologia, Entretenimento, Design, Business, Ciência, Cultura, Artes, Questões Globais, Especial. Gostaria de saber melhor as definições e os critérios usados para classificar as apresentações nestes temas. Ainda tem uma extensa lista com outros temas (link). Parece-me ser muito difícil classificar uma apresentação em apenas um tema e a criação dos temas (coleções) deve ser algo bem dinâmico. Tratar coleções e categorias como temas parece ser uma adaptação de um sistema de classificação com dois propósitos distintos, mas funciona para o TED. Em outro artigo, tratei um pouco esta questão em relação a sistemas de classificação do conhecimento utilizado por bibliotecas e museus, que por possuem propósitos diferente e por isso utilizam sistemas de classificação diferentes. Na verdade, de forma geral, este é um problema em aberto com apenas algumas soluções aproximadas, que necessitam evoluir junto com os dados que está indexando. Além disso, é um problema muito presente em nossas vidas. Qualquer escritor de blog passa por essas questões já que temos que atribuir categorias aos seus artigos.
Neste texto, foram apresentadas definições para ciência, tecnologia e arte e sobre a dificuldade de classificar coisas com esses termos, já que as definições se modificam ao longo do tempo. Ah! Também fica como lição que é importante ter boas definições para termos fundamentais da pesquisa, pois mesmo que não sirva para todos os casos há de se ter clareza sobre o que se diz. Enfim, existem diversos modos de classificar coisas e acredito que a regra de ouro neste caso é estude mais e pratique KISS (keep it simple stupid).





